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Position Papers
Viviane: nossa catadora em Paris
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23/06/2010

A catadora Viviane Mertig, de Foz do Iguaçu, é uma mulher vitoriosa que, em muitos sentidos, simboliza os novos tempos que vivem os brasileiros, em especial essa categoria tão sofrida. Não faz muito tempo, ser um catador de materiais recicláveis significava estar no limite da dignidade, significava estar na condição mais humilde dentro do que se pode chamar de um trabalho honesto, porém sem consideração, respeito e auto-estima.
   
Sem dúvida, essas pessoas ainda lutam com muitas dificuldades, mas há vários sinais de mudança. O primeiro deles está em sua capacidade de organização e mobilização coletiva. O Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) é hoje um dos mais atuantes e articulados movimentos sociais no país.
    
Outro sinal de mudança está na valorização dessas pessoas, que prestam um serviço para a sociedade da maior relevância, nestes tempos em que o equilíbrio do homem com o meio ambiente se faz tão necessário. Na sociedade consumista de hoje, que gera tantos descartes causadores da poluição do ar, da água e do solo, os catadores são verdadeiros agentes ambientais, trabalhando pelo reaproveitamento das matérias-primas que transformamos em lixo.

O que cada catador coleta de papel e papelão significa uma árvore a menos derrubada pela indústria de celulose. A partir de sua organização e capacitação, e do reconhecimento de sua importância, os catadores se apresentam aptos a, oficialmente, prestarem o serviço de coleta de recicláveis nos centros urbanos.
  
Viviane Mertig é prova viva dessas mudanças e simboliza, ainda, o novo papel da mulher na sociedade contemporânea, de liderança e de protagonismo nas questões socioambientais que a todos afetam.

Foi a Paris – e não é um conto de fadas – fazer palestra e participar do evento Brasil em Movimento, como convidada especial da ex-primeira dama da França e abnegada militante da causa ambiental, da água e dos direitos humanos Danielle Miterrand (que recentemente esteve no oeste do Paraná por três dias conhecendo o Programa Cultivando Água Boa da Itaipu e seus parceiros).
  
A atividade internacional sobre direitos humanos e temas sociais e ambientais significa um marco histórico para todos nós. Há pouco mais de seis anos, Viviane percorria as ruas de Foz do Iguaçu com um saco às costas, recolhendo latinhas de refrigerante e de cerveja para faturar alguns trocados e poder comprar um litro de leite.
  
De lá para cá, Viviane se descobriu uma nova pessoa. Em 2003, ela passou a fazer parte do projeto Coleta Solidária, iniciativa da Itaipu em conjunto com prefeituras da Bacia Hidrográfica do Paraná 3 e diversos parceiros. De início, recebeu uniforme e carrinho – uma das principais carências dos catadores, visto que na maioria dos casos o instrumento de trabalho deles está na mão de atravessadores, que também ficam com boa parte da renda.
  
No embalo das transformações e da mobilização comunitária promovida na região Oeste do Paraná, Viviane concluiu o ensino médio e cursou a Formação de Educadores Ambientais, experiência pioneira no país, em que ela teve a oportunidade de compartilhar diversos saberes e temas socioambientais com pessoas das mais variadas trajetórias de vida, como agricultores, professores, técnicos e líderes comunitários.
     
Hoje, ela preside a Cooperativa dos Agentes Ambientais de Foz do Iguaçu (Coafi) – que soma 158 cooperados – e é a representante do MNCR no Paraná. Em sua simplicidade e humildade, diz que a vida mais digna que construiu nesses últimos anos – e que compartilha com o marido e as três filhas – não é sua principal conquista, mas sim os valores simples da vida, o calor humano, a amizade e o respeito que divide com seus colegas catadores e demais pessoas com quem convive.
       
Essa trajetória nos enche de orgulho e de esperança. Sabemos que existem muitas “Vivianes” pelas ruas deste país (há 800 mil brasileiros que tiram seu sustento dessa atividade), esperando apenas por uma oportunidade, um apoio  – um gesto, que seja – para que também tenham a chance de promover e multiplicar a mudança.

Nelton Friedrich é diretor de Coordenação e Meio Ambiente da Itaipu Binacional