A maior geradora de energia limpa e renovável do planeta

Jornal do Brasil
Opinião - Os lugares de Itaipu
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12/05/2008

Em algum momento do século 16 a rainha de Espanha pretendeu que seus domínios no Paraguai se estendessem ao litoral de São Paulo. Desde aqueles sonhos de territorialidades traduzidas em linhas cartográficas, um longo e penoso caminho foi percorrido até que as nacionalidades organizadas na forma de Estados se acomodassem em suas fronteiras. Mais do que linhas demarcatórias traçadas ou deslocadas de acordo com as conveniências, as fronteiras se estabeleceram segundo uma dinâmica econômica, demográfica e cultural, desdobrada em ações políticas e militares.

 

Não foi Tordesilhas, essa linha antiga e desconsiderada na sua pretensão de dividir o mundo que fez com que se falasse português em muitas ruas de Boston ou espanhol em Los Angeles, nem tampouco no Rio de Janeiro e Buenos Aires. Afortunadamente, foram fatos acontecidos aqui e não linhas imaginárias traçadas em realidades distantes que acabaram por definir as fronteiras entre as nações sul-americanas. Outros povos amargam até hoje a desgraça de terem de se conformar a limites riscados em gabinetes europeus.

 

A América do Sul é a região do mundo menos militarizada. E não o é por acaso. Libertadores sul-americanos sacudiram o jugo colonial combatendo em terras que hoje pertencem a diferentes nações. A herança dos conflitos regionais pelos limites inacabados deixados pelo colonizador nem de longe produziu guerras, ódios e ressentimentos como os que dividem povos em outras partes do planeta. Esse legado convive, no entanto, com um passado ainda próximo de segregação étnica, pobreza e vazios, de homens, e por vezes, de idéias, suscitando o retorno de algumas, anacrônicas.

 

Os contenciosos históricos não desaparecem. Estão entranhados nos inconscientes coletivos. Lidar com eles não significa ignorá-los, distorcê-los por oportunismo ou manipulá-los ideologicamente. Há, no entanto, uma intencionalidade no seu trato que, nos dias de hoje, é de confluência nas próprias identidades. Recentemente, o Brasil manifestou sua posição em relação ao conflito que muitos vêem como inevitável, repudiando o choque e assumindo o encontro de civilizações. A própria escola geopolítica brasileira aplicada à América do Sul foi sempre direcionada para a organização do espaço e não para a confrontação.

 

Já ocorreram integrações regionais pela imposição, pela assimetria de poder e pela força que não prosperaram. A mais bem sucedida atualmente é a da União Européia, encaminhada pelo sentimento compartilhado de responsabilidade por guerras devastadoras que arrancaram o ser humano de seus limites civilizacionais. Aqui, por muito melhores razões, não será pelo caminho da culpa que prosperará a integração regional. Contaminá-la com recorrências fronteiriças, revolucionárias, étnicas e nacionalistas é a marca da insensatez que tomou forma no pesadelo boliviano que alguns poucos pretendem estender ao continente. Cada tempo tem a sua História e quem a faz tem os olhos voltados para frente.

 

O Brasil tem tradição de política externa e história para ser o eixo da integração sul-americana. Setenta anos depois do início de suas singulares carreiras intelectuais, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda continuam essenciais para a compreensão do Brasil e a construção de seu futuro. De um ficou-nos a lição metacurricular (esquecida) da presença de todas as raças na brasilidade. De outro, permanece a inspirada visão do semeador que, na sua plasticidade étnica e espacial, tem alguma coisa a dizer ao ladrilhador que replicou nos Andes o cantonalismo da terra-mãe, em desfavor de indígenas e descendentes de europeus.

 

Como país que pretende ser ator relevante nos grandes temas internacionais – como a paz no Oriente Médio, a proposição de uma nova matriz energética e a correção das assimetrias do comércio mundial – o Brasil não pode fracassar na integração sul-americana. Se esta é a vocação do país, Itaipu está onde deveria, erguida como um pilar de integração e não de discórdia. A grandeza do Brasil é maior do que a sua extensão territorial, onde cabem os outros projetos que podem arrancar a América do Sul de sua secular letargia.

 

A Europa começou a sua integração pela Comunidade Européia do Carvão e do Aço, em 1951, emblematizando-a com os insumos vitais da era industrial, em seu apogeu. No momento em que a energia assume, em plena Era Tecnológica, sua centralidade nas questões mundiais, é natural que ela se torne o marco de um novo paradigma de integração regional. Mas para isso, é preciso reconhecer que vivemos uma dinâmica histórica muito diferente daquela onde linhas cartográficas, imaginadas ou demarcadas, eram a razão de ser das nações. Esse processo está encerrado, sancionado pela História e materializado nas fronteiras. As linhas que são traçadas hoje são aquelas dos acordos, dos contratos e dos fluxos de investimento e consumo. Quando bem lidas, compreendidas e respeitadas, conduzem à geração de riqueza. Quando não, à mesmice do atraso.

 

Itaipu, como construção, está no lugar certo. Falta apenas a compreensão do seu significado para ocupar o lugar que lhe cabe no projeto de integração sul- americano.

 

 

Sérgio Paulo Muniz Costa
Historiador