A maior geradora de energia limpa e renovável do planeta

Gazeta do Povo - PR
O plantio direto a serviço de Itaipu
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15/09/2009

Foz do Iguaçu e Curitiba - Adotado em pelo menos 75% das lavouras de grãos paranaenses, o sistema de plantio direto na palha (PDP) tornou-se aliado do meio ambiente e da geração de energia elétrica. Garantiu, na Costa Oeste, que o reservatório da maior usina hidrelétrica do mundo, a Itaipu Binacional, ficasse longe do assoreamento e recebesse água de qualidade.
    
O volume de solo que poderia chegar ao Lago de Itaipu anualmente, mas fica retido na palhada que cobre a terra, daria para encher 2 milhões de caminhões de 25 toneladas. A conta vem da estimativa técnica de que a água das chuvas carrega 144 toneladas de material por hectare em áreas desprotegidas do Paraná todo ano. A Costa Oeste cultiva cerca de 500 mil hectares de soja e milho, que poderiam perder 72 milhões de toneladas/ano. Em dois terços dessa área, no entanto, há plantio direto, o que faz com que esse risco seja 54 milhões de toneladas/ano menor.
 

No Brasil, quase 40% da área coberta com grãos adotam o sistema de plantio direto na palha. No Paraná, a terra dos pioneiros desse modelo de cultivo, o porcentual passa de 50%Conversão
   
Brasil faz frente no sistema

O Brasil deve chegar à conversão de 30 milhões de hectares de lavouras ao plantio direto ainda nesta década, conforme dados da Federação Brasileira de PDP. Isso faz com que o país ultrapasse os Estados Unidos. Em área absoluta, cerca de 26 milhões de hectares das lavouras norte-americanas adotam o sistema. Proporcionalmente, o PDP tem 38% da área agrícola no Brasil (considerando grãos e outras culturas) e 10% nos EUA.
A conversão das lavouras brasileiras começou na década de 70, pelas regiões Norte e Centro-Sul do Paraná. Até o final dos anos 80, havia apenas 1 milhão de hectares convertidos. Nos anos 90, no entanto, chegou-se a 14,4 milhões e, na primeira metade da década atual, houve salto para 25,5 milhões de hectares.
   
Nova avaliação será feita para aferir a expansão observada nas safras mais recentes. Juntos, Brasil, Argentina e Paraguai teriam perto de 50 milhões de hectares de PDP, 20 milhões a mais que os EUA. (JR)Convênio busca adesão ao mercado de carbono
Com orçamento inicial de R$ 300 mil, um convênio firmado entre a usina Itaipu e o setor agrícola abre caminho para a certificação de áreas que adotam o plantio direto na palha (PDP) – e, assim, geram crédito de carbono.

A contribuição do PDP se acentuou nos últimos dez anos. Em 1997, uma equipe do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) fez um diagnóstico na região do Lago de Itaipu para verificar o estágio do plantio direto. A pesquisa revelou, entre outras questões, que a rotação de cultura, critério básico do PDP, não era feita corretamente, e que 85% dos agricultores ainda remexiam o solo, enterrando a palha, a cada três ou quatro anos. Desde então, uma série de campanhas tenta corrigir esses problemas.
   
O técnico do Iapar Ademir Calegari, especialista em solos, calcula que o sistema reduz em 95% o assoreamento no Lago. “O plantio direto é a alternativa de manejo que mais contribuiu para a preservação do ambiente”, afirma. O diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, Jorge Samek, reconhece que o plantio direto assegurou água de qualidade para o Lago de Itaipu.
Samek observa que a cada 33 dias toda a água de Itaipu é renovada, ou seja, 29 bilhões de metros cúbicos de água chegam ao reservatório. “A água é de excelente qualidade e não temos problemas de assoreamento.”
  
Mesmo com a contribuição do PDP, a vida útil da usina é uma incógnita. Estudos geológicos indicam que Itaipu, em funcionamento desde 1982, tem 200 anos pela frente. Antes da expansão do plantio direto, havia previsões que apontavam para menos 50 anos de vida útil. A redução da erosão e do assoreamento teria adiado por pelo menos 30 anos a necessidade de intervenções como dragagem. Problemas da próxima década só devem aparecer após 2040.
  
A evolução das máquinas amplia os benefícios do PDP, afirma o agrônomo especialista neste assunto Ruy Casão, do Iapar. “Hoje em dia, 99% das máquinas de plantio fabricadas no Brasil são para o plantio direto. Arados e grades são usados praticamente só em terraplanagem.” Em sua avaliação, tanto no campo como na indústria, ainda há muito a avançar. “Os produtores vão usando novas espécies de plantas, a concentração de palha aumenta e há mais conhecimento sobre os diferentes tipos de solo. Isso requer máquinas e equipamentos mais eficientes.”
  
Preocupação

O problema do assoreamento e da poluição do Lago de Itaipu, porém, não está resolvido. O diretor de Coordenação da Itaipu Binacional, Nelton Friedrich, considera que o plantio direto precisa ser aperfeiçoado e que outras medidas de impacto devem ser tomadas, como o plantio de mata ciliar, a readequação de estradas e a implantação de abastecedouros comunitários. A região que influi diretamente no lago tem 1 milhão de habitantes e concentra criadouros de aves e suínos, lembra. Friedrich considera que o impacto do lixo urbano e dos resíduos da produção agrícola precisa ser permanentemente contido.