A maior geradora de energia limpa e renovável do planeta

Instituto Humanitare
Entrevista com o diretor Jorge Samek
Tamanho da letra
05/06/2012

Jorge Samekengenheiro agrônomo paranaense, é diretor geral da Itaipu Binacional – a maior usina geradora de energia do mundo. Samek recebeu em 2010 o título de cidadão honorário do oeste paranaense, em reconhecimento ao trabalho socioambiental que desenvolveu na liderança da hidrelétrica desde 2003. Nessa entrevista, Samek compartilha suas visões sobre desenvolvimento sustentável, inclusive sobre a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, e esclarece como a Itaipu atua para promover um futuro melhor.

Qual o principal desafio da ITAIPU para ajudar a alcançar um futuro sustentável?Samek - Em 2003, quando assumimos a ITAIPU, nossa primeira providência foi revisar e ampliar a missão institucional da ITAIPU, incluindo um compromisso claro com
a responsabilidade social e ambiental, impulsionando o desenvolvimento econômico, tecnológico e turístico sustentável do Brasil e do Paraguai. Nos últimos dez anos, a ITAIPU construiu uma sólida política de sustentabilidade que hoje perpassa todas as suas ações. E nesta semana que antecede a Rio+20, lançamos o Sistema de Gestão da Sustentabilidade da ITAIPU, um novo modelo de gestão corporativa que internaliza e institucionaliza os mais modernos conceitos de planejamento estratégico participativo. Com a implantação desse sistema, todos os programas e projetos desenvolvidos pela empresa serão revisados e a sua efetividade passará a ser avaliada em razão da sua aderência aos princípios da sustentabilidade e consonância com a visão estabelecida para 2020. Até , a ITAIPU quer se consolidar como a geradora de energia limpa e renovável com o melhor desempenho operativo e as melhores práticas de sustentabilidade do mundo, impulsionando o desenvolvimento sustentável e a integração regional. Este é o principal desafio que nos propomos enfrentar para contribuirmos na construção de um futuro sustentável

Quais as iniciativas ambientais adotadas pela empresa?Samek – A ITAIPU está localizada na Bacia Hidrográfica do Paraná 3 (BP3), que reúne 29 municípios na margem brasileira do lago, onde vive uma população de cerca de um milhão de pessoas. A economia desta região é baseada, essencialmente, na agricultura, pecuária e agroindústria, destacando-se como uma das bacias com melhores índices de produtividade do país. A estrutura fundiária é de reúne 20pequenas propriedades, com forte presença de cooperativas e associações de agricultores. É neste contexto que a ITAIPU desenvolve, desde 2003, o Programa Cultivando Água Boa, em parceria com as prefeituras municipais e uma plêiade de atores locais. Trata-se de um programa guarda-chuva que  programas e 65 projetos e ações de responsabilidade socioambiental. O que dá coerência e consistência a este conjunto expressivo de iniciativas é a convergência em torno do objetivo central de corrigir passivos ambientais, disseminar valores e práticas sociais sustentáveis e, como consequência, melhorar a qualidade de vida das comunidades e construir a bases de um futuro sustentável. Um objetivo tão ambicioso só pode ser alcançado com a participação de todos. Partindo dessa premissa, o Programa Cultivando Água Boa atua fortemente em duas frentes: educação ambiental e mobilização social. A metodologia utilizada, que se inspira nas idéias do educador Paulo Freire, preconiza a transformação da realidade a partir da reflexão crítica dos agendes locais. Outro conceito fundamental do programa é o conceito de rede. Hoje, o Cultivando Água Boa envolve uma extensa rede de mais de dois mil parceiros, de cooperativas de agentes ambientais a associações de agricultores e instituições de ensino. O enraizamento das ações desenvolvidas é assegurado pelo caráter participativo do programa e pela ênfase dada à formação de educadores e multiplicadores. Outra iniciativa de largo alcance que merece destaque é a Plataforma ITAIPU de Energias Renováveis, que desenvolve uma experiência pioneira nos municípios da região Oeste do Paraná de aproveitamento da biomassa residual para produção de biogás e geração de energia. O Condomínio Ajuricaba, na área rural do município de Marechal Cândido Rondon, que reúne 33 pequenos agricultores, é um belo exemplo de como é possível aliar alta produtividade em atividades de pecuária intensiva com cuidados ambientais. Este projeto viabilizou a produção de biogás a partir dos dejetos da pecuária e seu uso para alimentar uma microcentral termelétrica a biogás. Além de resolver um grave problema ambiental, o projeto gera renda, fortalecendo a agricultura familiar. São iniciativas como esta que a ITAIPU está ajudando a disseminar.

Qual o investimento da empresa em novas alternativas energéticas?Samek - A ITAIPU investe em pesquisas de soluções sustentáveis para a produção de energia a partir da biomassa, produção de baterias ambientalmente corretas com alta capacidade de armazenamento de energia, veículos elétricos e também as aplicações do Smart Grid, preparando o setor de energia para os novos modelos de negócios advindos dessas tecnologias. A ITAIPU tem papel importante na articulação e obtenção de recursos para promover esses desenvolvimentos, que não são exclusivamente patrocinados pela ITAIPU, mas recebem também investimentos do governo federal e da iniciativa privada. Como um exemplo de pesquisa financiada com recursos públicos, podemos destacar o projeto de desenvolvimento de Bateria de Sódio que recebeu R$ 32 milhões da FINEP. No campo das parcerias com o setor privado, podemos destacar os investimentos realizados no projeto de desenvolvimento do Veículo Elétrico (VE), que recebeu aportes da ordem de R$ 40 milhões nos últimos cinco anos. A ITAIPU contribui com recursos próprios em cada um destes projetos, investindo aproximadamente R$ 20 milhões no Projeto VE. É importante mencionar que criamos, em 2004, o Parque Tecnológico Itaipu (PTI), que vem atuando fortemente no campo de pesquisa e desenvolvimento, com especial atenção para fontes alternativas de energia renovável. Outra indicação inequívoca da importância que a ITAIPU atribui a esta área foi a criação, em 2009, da Coordenadoria de Energias Renováveis, responsável pela Plataforma ITAIPU de Energias Renováveis e pelo Centro Internacional de Internacional de Energias Renováveis/Biogás, instituído em parceria com a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (ONUDI). Pode parecer paradoxal que a maior geradora de energia elétrica do mundo esteja investindo em projetos de micro-geração distribuída, como o Condomínio Ajuricaba. Mas se acreditamos que o futuro sustentável passa pela garantia de energia renovável para todos, temos que combinar os investimentos em grandes projetos hidrelétricos com uma política de geração distribuída, que incentive a viabilize microgeradoras movidas a biogás e o desenvolvimento de outras fontes alternativas. Finalmente, a ITAIPU também está preocupada em promover o uso social da energia, por isso investiu no desenvolvimento de um carrinho elétrico para os catadores de materiais recicláveis. Este projeto, em parceria com o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, contribui para dignificar o trabalho de agentes ambientais realizado por estes trabalhadores.

O que o senhor espera que a Rio+20 mude no cenário energético?Samek – Esperamos que a Rio+20 produza um firme compromisso com as metas do desenvolvimento sustentável, mediante a convergência entre os Chefes de Estado dos países desenvolvidos e dos países em desenvolvimento. A abundância de fontes energéticas renováveis é uma das vantagens que o Brasil detém. Por isso, podemos e devemos assumir, construtivamente, uma posição de liderança no desenvolvimento de energias renováveis. O país não abre mão de usar, racionalmente, seus recursos. A defesa da hidroeletricidade como fonte renovável é essencial para assegurarmos o acesso de todos os brasileiros a energia sustentável. ITAIPU se tornou um exemplo de que é possível implantar grandes projetos hidrelétricos com cuidados ambientais. É preciso considerar, ainda, que os avanços tecnológicos alcançados nas últimas décadas e a  legislação ambiental adotada pelo Brasil desde a redemocratização, permitem hoje minimizar os impactos da construção de grandes hidroelétricas. O próprio conceito de usina-plataforma que será utilizado nos novos projetos da região Amazônica, aponta para uma nova geração de hidroelétricas, tecnologicamente mais avançadas e ambientalmente mais sustentáveis. Portanto, esperamos que a Rio+20 reconheça o direito inalienável de todas as nações de promover o seu desenvolvimento sustentável. Os países desenvolvidos, que tiveram um papel ativo na degradação do meio ambiente e dos recursos naturais, devem assumir, proporcionalmente, a sua quota de responsabilidade para promover e custear as ações de redução de emissão de gases que provocam o efeito estufa, bem como para criar as bases de uma economia verde. Seria inaceitável que se pretendesse impor aos países em desenvolvimento que pagassem a conta das extravagâncias cometidas pelas nações desenvolvidas, que não tiveram a mesma preocupação ambiental que agora querem impor aos demais.

Qual a sua opinião sobre a construção de Belo Monte?Samek – O projeto de Belo Monte vinha sendo estudado e discutido há cerca de três décadas. Passou por diversos reestudos, até chegar a uma concepção que mitiga os impactos socioambientais. O projeto que está sendo construído em Belo Monte é tecnologicamente avançado e ambientalmente correto. Somos a favor, portanto, da posição adotada pelo Governo Brasileiro tanto em relação a Belo Monte quando aos demais grandes projetos hidroelétricos em construção na Amazônia. São usinas hidrelétricas de nova geração, quando comparadas com projetos como o de ITAIPU e Tucuruvi, que começaram a ser construído na década de 70. As hidrelétricas de Jirau, Santo Antônio e Belo Monte dispensam grandes reservatórios, reduzindo drasticamente a extensão de áreas alagadas. Sem Belo Monte, com capacidade instalada prevista de 11 mil megawatts, o Brasil precisaria construir 19 usinas térmicas a gás natural. Essas usinas emitiriam por ano 19 milhões de toneladas de gás carbônico, um dos causadores do efeito estufa. Não é possível considerar a energia eólica e solar, com sugerem alguns, pois elas são apenas complementares e não alternativas de fato. Portanto, a construção de Belo Monte é indispensável para assegurar a soberania energética do Brasil. É uma decisão de Estado que apoiamos integralmemnte.