Entrevista do diretor de Coordenação e Meio Ambiente da Itaipu Binacional, Nelton Friedrich, durante o Fórum Social do Mercosul, em Curitiba, no dia 28 de abril de 2008.
Qual o papel dos movimentos sociais na luta em defesa da água?
Têm um papel decisivo. Porque o exercício da cidadania é na sua plenitude. Já que a água é vida, e ninguém vive sem ela, é preciso o engajamento de todos nessa luta de conscientização, de defesa dos direitos, de evitar a privatização da água. E fazer com que tenhamos cada vez mais o respeito a esse direito inalienável, a esse direito (bem) comum e imprescindível que é a água. Agora, existem outras frentes, por exemplo, em que os movimentos (sociais) são fundamentais para desenvolver cada vez mais a cultura da água.
Por outro lado, precisamos restabelecer cada vez mais os valores, inclusive sagrados da água, que fomos perdendo, nesse processo absurdo de tudo virar coisa, matéria, negócio. Além disso, é preciso ter cuidado. Porque na ética do cuidado, nós temos que cuidar de cada gota de água, cada nascente. Cada gota de água que desperdiçamos é um crime contra nós mesmos e contra a humanidade. Nós temos que estar prontos numa outra frente que é cada vez mais desenvolvermos a cultura da paz e não a cultura da guerra, pois já se anunciam conflitos, em função da escassez ou da dominação econômica sobre recursos hídricos.
Além disso, há um outro valor fundamental. Estamos definitivamente a construir esse paradigma, que é o da qualidade e não da quantidade. Do cuidado e não da conquista. E isso significa, portanto, até um novo jeito de ser, de sentir e de viver.
Quais seriam os principais desafios na América Latina?
Primeiro, nós temos de aumentar significativamente nossa consciência sobre nosso potencial hídrico, a destinação dele, o multiuso das águas e o cuidado permanente para preservá-la. Isso inclui a defesa da água, para que não seja objeto de interesses, muitas vezes, até escusos, ou meramente econômicos. Por outro lado, nós temos cada vez mais que nos integrar, compreender cada vez mais que a unidade de planejamento da natureza é a bacia hidrográfica.
Todos nós, em qualquer lugar da América Latina, ou do mundo, vivemos em uma microbacia, que, por sua vez, faz parte de uma subbacia, que, por sua vez, faz parte de uma bacia hidrográfica, ou até de uma macrobacia, como a Bacia do Prata. Além do mais, a água não tem dono. Por isso, ela é também um elemento integrador e de um grande valor coletivo.
Não existe um fazendeiro que é dono da água daquele rio. Porque a água não pertence, não tem dono, mas ao mesmo tempo é de todos. Por isso, nós temos que ter muito esse cuidado. Além disso, existem outras questões concretas que entram, inclusive, no campo da ecoeficiência. Por exemplo, nós temos cada vez mais que evitar o desperdício. Ter um cuidado muito mais significativo com a água nobre, que é a que vai para o alimento e mata a sede, e, ao mesmo tempo, pensar como é que estamos fazendo o uso da água. Enfim, são várias tecnologias limpas, verdes, que precisam estar colocadas à disposição nesse outro momento do planeta, especialmente na questão dos recursos hídricos.
Com relação ao Aqüífero Guarani. Existem muitos países interessados na questão. O que pode ser feito para evitar uma possível invasão de multinacionais na região?
Primeiro, eu acredito piamente que precisamos ampliar a discussão sobre isso. Aumentar a conscientização, exercer mais a cidadania e ter mais compromissos com essa questão. Segundo, nós não podemos esquecer que, tanto os recursos naturais, e especialmente os recursos hídricos superficiais, como também os subterrâneos, estão hoje na pauta dos grandes interesses. Porque, quanto mais escassez, mais valorização, mais ganho. Existem determinados valores para a humanidade, como a água, que não podem entrar nessa pauta.
Por isso a água tem de ser para todos. E o Aqüífero Guarani idem. Porque o Aqüífero não é de todo ele de água potável, mas tem um certo uso diferenciado, conforme a região. Então, se nós não cuidarmos bem das águas superficiais, por acaso nós vamos cuidar bem das águas subterrâneas? Nós temos que, simultaneamente, ter uma ação com as águas superficiais, as nascentes, os rios, as fontes de água, mas ao mesmo tempo, com as águas subterrâneas. E aí, nós temos que melhorar muito nossa capacidade de luta. Isso significa, por exemplo, fazermos que os países onde existe o Aqüífero Guarani tenham uma certa harmonia de legislação. E cada vez mais uma harmonia de políticas públicas. Porque não pode existir grandes diferenças. Não estou falando de quebra de soberania. Ao contrário. É ter soberania sobre as águas dos aqüíferos, mas ter uma certa harmonia na legislação e na luta política. Caso contrário, nós podemos abrir flancos aos interesses, alguns, inclusive, já diagnosticados e outros que possam vir a surgir, e que venham predominar, sobre nossos interesses.
Qual o papel da Itaipu Binacional no processo de integração e de defesa da água?
É o que ela vem fazendo e ampliando. Por exemplo, com o programa “Cultivando Água”, que é considerado hoje já um programa modelar. O Centro de Saberes e Cuidados Socioambientais, cujo principal objetivo é a água como elemento integrador. Todos os países da Bacia do Prata (Bolívia, Paraguai, Uruguai, Argentina e Brasil) estão no corpo diretivo. E com toda a ação que está se desenvolvendo do Centro de Saberes, a Universidade da América Latina (Unila) será mais um importante ponto de integração em Foz do Iguaçu. A universidade da América Latina em Foz será instalada dentro da área da Itaipu.
A empresa está doando 40 hectares. Portanto, a primeira universidade realmente de integração da América Latina chegará a 10 mil alunos, 50% deles brasileiros e outros 50% dos demais países da América latina. A ação do PTI (Parque Tecnológico Itaipu), do Centro de Hidroinformática e todas as demais ações estão ligadas à sustentabilidade.
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